Cédulas de cruzeiro real são queimadas na casa da moeda
O real debutou ontem, gente! No dia primeiro de julho de 1994 as cédulas do real começaram a circular no Brasil. Na época, a inflação chegava a 50% ao mês e ultrapassava os 2.000% ao ano. Hoje, temos como meta uma inflação 4,5% para 2009.
Em oito anos, a população tinha visto seis planos naufragarem – Cruzado, Cruzado II, Bresser, Verão, Collor e Collor II –, um deles devastar suas reservas e o inédito impeachment de um presidente. Tempos interessantes...
Eu era criança quando isso tudo aconteceu e tenho memórias emblemáticas da época. Lembro dos supermercados lotados, quando saíamos pra fazer “a compra do mês”. Lembro de ouvir pelo auto-falante que tal produto seria reajustado e sair correndo para pegar uma unidade, antes que a incansável maquininha trocasse a etiquetinha do preço.
Algumas famílias tinham dentro de casa freezers, daqueles grandes, horizontais, iguais aos de padaria, para estocar comida. Não se sabia até quanto os preços poderiam subir, nem se seria possível comprar carne no mês que vem.
O plantão da Globo avisava que a gasolina iria aumentar e todo mundo corria para ao posto para abastecer. Filas de carros se formavam em direção às bombas.
Lembro que a Vivian, minha melhor amiga da escola, comprou pra mim um saquinho de batatas fritas palito. Demorei alguns dias para pagá-la, e quando entreguei o dinheiro, tive como resposta: “Agora a batatinha custa bem mais”. Dez anos depois me surpreendi ao descobrir no Orkut que a Vivian se formara em Direito. Eu esperava que ela se tornasse economista, administradora, algo assim.
Hoje, todas essas cenas soam tão absurdas, que parecem parte de um filme ou enredo de um romance a la George Orwell: “Era uma vez um país onde o salário das pessoas valia pela metade no dia seguinte em que elas recebiam...”.
Pra mim, os herois dessa história são aqueles que sobreviveram. Gente que comeu muito ovo, porque não conseguia colocar carne na mesa; gente que ficou com os cabelos brancos e envelheceu 10 anos com o Plano Collor; gente que honrou os pagamentos de carnês com mais de 40 folhas. Gente como os meus pais que “constituiu família” em tempos nada fáceis.
(Foto: AE, 27/06/1994)























