Mia Couto, Terra Sonâmbula (1992)
Eles pareciam felizes. Sorriam, mesmo sabendo que a separação inevitável viria em instantes. Tinham os cabelos brancos – os dela cacheados, os dele lisos e ralos no alto da cabeça – e a expressão tranquila que quem não espera mais nada. Apenas aguarda.
Eram meus avôs, mas não se pareciam em nada com os meus avôs. Coisas de sonhos, não dá pra entender. É coisa de se sentir.
O quarto tinha uma grande janela, ornada por um lindo vitral transparente. Ao fundo, entre as linhas de ferro negro, retorcidas como ramos de flores, víamos um parque. Pessoas corriam, namoravam, cantavam a volta de um violão, e crianças brincavam de roda.
– Essa cena me lembra quando nos conhecemos – ela disse – Foi num parque, em um dia como esse, de céu azul, sol ralo e vento fresco.
E começou a cantarolar: “Quem nunca teve um grande amor, não sabe a tristeza que é um domingo só... Eu te asseguro, meu amor...”
Repeti inúmeras vezes a estrofe da canção. “Preciso lembrar, preciso lembrar, preciso escrever, preciso escrever.” Me levantei. A letra da música começou a aparecer no papel branco de linhas azuis. Vi palavra seguida de palavras no caderno... “Quem nunca teve um grande amor...” mas não! Eu não estava escrevendo no caderno, continuava sonhando. Precisava acordar, precisa escrever. Tenho que acordar!
Abri os olhos. Alcancei um caderno dentro da mochila surrada largada no chão. Com a mão mole de quem ainda não despertou por completo, escrevi as três primeiras frases. Não consegui lembrar o resto. Se perdeu.
Ele voltou do banho e estranhou me ver desperta com o caderno nas mãos. Contei e cantei a canção. Ele pegou o violão e juntos registramos melodia e letra da canção do sonho.
Na terapia veio a interpretação bonita: “Sonhar com anciãos e música é sinal de bom presságio.” Sim, eu também acho que é.
Foto: Getty Image

























