terça-feira, 27 de outubro de 2009

Um sonho

“Os sonhos são cartas que enviamos a nossas outras, restantes vidas”
Mia Couto, Terra Sonâmbula (1992)


Eles pareciam felizes. Sorriam, mesmo sabendo que a separação inevitável viria em instantes. Tinham os cabelos brancos – os dela cacheados, os dele lisos e ralos no alto da cabeça – e a expressão tranquila que quem não espera mais nada. Apenas aguarda.

Eram meus avôs, mas não se pareciam em nada com os meus avôs. Coisas de sonhos, não dá pra entender. É coisa de se sentir.

O quarto tinha uma grande janela, ornada por um lindo vitral transparente. Ao fundo, entre as linhas de ferro negro, retorcidas como ramos de flores, víamos um parque. Pessoas corriam, namoravam, cantavam a volta de um violão, e crianças brincavam de roda.

– Essa cena me lembra quando nos conhecemos – ela disse – Foi num parque, em um dia como esse, de céu azul, sol ralo e vento fresco.

E começou a cantarolar: “Quem nunca teve um grande amor, não sabe a tristeza que é um domingo só... Eu te asseguro, meu amor...”

Repeti inúmeras vezes a estrofe da canção. “Preciso lembrar, preciso lembrar, preciso escrever, preciso escrever.” Me levantei. A letra da música começou a aparecer no papel branco de linhas azuis. Vi palavra seguida de palavras no caderno... “Quem nunca teve um grande amor...” mas não! Eu não estava escrevendo no caderno, continuava sonhando. Precisava acordar, precisa escrever. Tenho que acordar!

Abri os olhos. Alcancei um caderno dentro da mochila surrada largada no chão. Com a mão mole de quem ainda não despertou por completo, escrevi as três primeiras frases. Não consegui lembrar o resto. Se perdeu.

Ele voltou do banho e estranhou me ver desperta com o caderno nas mãos. Contei e cantei a canção. Ele pegou o violão e juntos registramos melodia e letra da canção do sonho.

Na terapia veio a interpretação bonita: “Sonhar com anciãos e música é sinal de bom presságio.” Sim, eu também acho que é.

Foto: Getty Image

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Palavra líquida

Zapeando com o controle remoto, vi na TV Cultura um “Café Filosófico” com a poetisa Viviane Mosé. Ela falava sobre mitologia grega e sobre como a sociedade moderna substituiu os sentimentos pela razão. Uma lindeza só.

No intervalo do bate-papo, uma atriz recitou um poema de Viviane que chamou muito a minha atenção. Talvez um alerta para a escritora desse blog abandonado. “Palavra boa é palavra líquida / escorrendo em estado de lágrima”, disse a moça.

Gravei na memória trechos do poema, dei um Google e encontrei o texto no site da autora. Publico aqui da forma que está lá, sem maiúsculas e vírgulas:


Poema preso

muitas doenças que as pessoas têm são poemas presos
abscessos tumores nódulos pedras são palavras
calcificadas
poemas sem vazão

mesmo cravos pretos espinhas cabelo encravado
prisão de ventre poderia um dia ter sido poema

pessoas às vezes adoecem de gostar de palavra presa
palavra boa é palavra líquida
escorrendo em estado de lágrima

lágrima é dor derretida
dor endurecida é tumor
lágrima é alegria derretida
alegria endurecida é tumor
lágrima é raiva derretida
raiva endurecida é tumor
lágrima é pessoa derretida
pessoa endurecida é tumor
tempo endurecido é tumor
tempo derretido é poema

palavra suor é melhor do que palavra cravo
que é melhor do que palavra catarro
que é melhor do que palavra bílis
que é melhor do que palavra ferida
que é melhor do que palavra nódulo
que nem chega perto da palavra tumores internos
palavra lágrima é melhor
palavra é melhor
é melhor poema

Foto: Getty Images

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Leite derramado

“Quando o balde se encher até a borda, será como se tudo entre eles estivesse dito, e seguirão em frente até o forte no fim da praia, onde Matilde vai querer refrescar o corpo. Posso até vê-la pousando o balde aos pés de Dubosc e entrando no mar daquele jeito dela, como se pulasse corda. Sairá das águas puxando os cabelos para trás, e Dubosc não vai perceber que uma marola vira o balde que ela deixara aos seus cuidados. Matilde verá as conchas que o refluxo espalhou na areia, pensará que ali pode estar desenhado o seu futuro, mas Dubosc as recolherá com sua manzorra. As conchas que ele joga no balde aos punhados, cheias de areia molhada, ela vai colher de volta e lavar uma a uma. Matilde vai olhar dentro de cada concha, vai espiar o interior daquelas casas abandonadas. [...] E daí a pouco Matilde e Dubosc deverão regressar à barraca, ele carregando o balde e ela com uma expressão nunca vista em seu rosto.”

“Aqui não me darei ao desfrute de divulgar intimidades de Matilde, mas digo que cada mulher tem uma voz secreta, com melodia característica, só sabida de quem a leva para a cama.”


– É uma delícia, né? Às vezes a gente encontra o Chico ali dentro... – ela diz, com a simplicidade e a graça de quem resume em uma só frase tudo aquilo que se quer dizer.

Foto: Reprodução

quinta-feira, 2 de julho de 2009

15 anos de real

Cédulas de cruzeiro real são queimadas na casa da moeda

O real debutou ontem, gente! No dia primeiro de julho de 1994 as cédulas do real começaram a circular no Brasil. Na época, a inflação chegava a 50% ao mês e ultrapassava os 2.000% ao ano. Hoje, temos como meta uma inflação 4,5% para 2009.

Em oito anos, a população tinha visto seis planos naufragarem – Cruzado, Cruzado II, Bresser, Verão, Collor e Collor II –, um deles devastar suas reservas e o inédito impeachment de um presidente. Tempos interessantes...

Eu era criança quando isso tudo aconteceu e tenho memórias emblemáticas da época. Lembro dos supermercados lotados, quando saíamos pra fazer “a compra do mês”. Lembro de ouvir pelo auto-falante que tal produto seria reajustado e sair correndo para pegar uma unidade, antes que a incansável maquininha trocasse a etiquetinha do preço.

Algumas famílias tinham dentro de casa freezers, daqueles grandes, horizontais, iguais aos de padaria, para estocar comida. Não se sabia até quanto os preços poderiam subir, nem se seria possível comprar carne no mês que vem.

O plantão da Globo avisava que a gasolina iria aumentar e todo mundo corria para ao posto para abastecer. Filas de carros se formavam em direção às bombas.

Lembro que a Vivian, minha melhor amiga da escola, comprou pra mim um saquinho de batatas fritas palito. Demorei alguns dias para pagá-la, e quando entreguei o dinheiro, tive como resposta: “Agora a batatinha custa bem mais”. Dez anos depois me surpreendi ao descobrir no Orkut que a Vivian se formara em Direito. Eu esperava que ela se tornasse economista, administradora, algo assim.

Hoje, todas essas cenas soam tão absurdas, que parecem parte de um filme ou enredo de um romance a la George Orwell: “Era uma vez um país onde o salário das pessoas valia pela metade no dia seguinte em que elas recebiam...”.

Pra mim, os herois dessa história são aqueles que sobreviveram. Gente que comeu muito ovo, porque não conseguia colocar carne na mesa; gente que ficou com os cabelos brancos e envelheceu 10 anos com o Plano Collor; gente que honrou os pagamentos de carnês com mais de 40 folhas. Gente como os meus pais que “constituiu família” em tempos nada fáceis.


(Foto: AE, 27/06/1994)

sexta-feira, 26 de junho de 2009

O homem mais enigmático do mundo


A notícia caiu como uma bomba. A redação inteira se mobilizou para checar na imprensa estrangeira se ele tinha realmente morrido. Apenas o site TMZ tinha a informação. Agências de notícias e a CNN americana davam que ele fora hospitalização com urgência. Se a gente “matasse” o rei do pop e depois tivesse que “ressuscitar” seria a maior barriga da história.

Em casa tive a confirmação. Sim, o homem mais enigmático do mundo morrera, aos 50 anos.

Com o passar dos anos, Michael Jackson foi se tornando uma incógnita. Porque o simpático garotinho negro dos Jackson 5, o jovem bonito, talentoso e mundialmente famoso tornou-se uma figura bizarra? A chocante transformação da cor de sua pele, somada às mudanças drásticas em sua aparência por sucessivas plásticas, o aproximaram de um andróide.

O emocional do rei do pop mostrava um homem desequilibrado, com síndrome de Peter Pan, possível molestador de crianças. O que se passava na cabeça de um dos artistas mais importantes e mais talentosos do mundo?

Pra mim, Michael foi perdendo a sua personalidade. Talvez seja a maior vítima da indústria cultural. Eu nunca o entendi, e sempre senti pena.

Deixo aqui um link para uma crônica musical linda sobre o homem, publicada no Afroências, de Gabriel Gaspar. Uma bela homenagem escrita por quem conhece o assunto.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Eu vou!

(Clique na imagem para ampliar)

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Marketing violento

Você compra uma pizza e: surpresa! Na tampa da caixa vem uma propaganda de uma marca de lavadoras de louça. Criativo esse povo do marketing, não? Pra comer a pizza o cidadão suja a louça, logo, ele fica com preguiça de lavar (já que ele pediu pizza, deve ser uma pessoa com algum grau de preguicice) e então na tampa da caixa está "a" solução para os problemas dele! Uma máquina de lavar louça. Certo? Não!

A pessoa que vê a propaganda fica furiosa, porque pagou caríssimos R$ 42,00 por uma pizza que vem com uma propaganda de spam. Pior do que um spam, porque você nem tem a opção de deletar antes de abrir.

Se a pizza ficasse mais barata, eu até aceitava a propaganda.

– Ô, dona, vai querer com tampa subsidiada ou não?

Logo mais o entregador de pizza vai chegar cantando um jingle pra ver se a gente acha engraçadinho... ou criativo... ou diferente. Sei lá eu o que esse povo tem na cabeça.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Sinais dos tempos

– Amiga, fiquei velha.
– O quê?
– É... Senti.
– Como assim?
– Te falei que estou tendo umas aulas com o primeiro ano? Então, dia desses a professora de semiótica passou umas propagandas “antigas” – friso no adjetivo – E eu conhecia todas, claro. A do leite caramelizado com flocos crocantes, a do primeiro sutiã, todos aqueles clássicos. Sabe qual tinha também? Aquela do “o tempo passa... o tempo voa...”
– E a poupança Bamerindus continua numa boa!
As duas: – É a poupança Bamerindus!
– Pois é! E você acredita que ninguém conhecia? Eu cantei a música sozinha. Só eu e o carequinha. Quando o vídeo acabou tava todo mundo olhando pra minha cara.
– Você fez o “dus, dus, dus” do final?
– Fiz...
Gargalhando: – O “dus, dus, dus” é foda, vai?
– E não parou por aí. A professora começou a falar sobre a campanha do Collor, o conceito de que ele iria “colorir” o Brasil e tal, e eu comentei sobre um comercial que está passando na TV agora, acho que é do PPS, que sugere que o governo vai confiscar a poupança como o Fernandinho fez. Você viu isso?
– Vi. É do PPS mesmo. Achei uma irresponsabilidade sem tamanho. Rolou até uma corrida às poupanças. No mês passado, o povo sacou mais do que depositou. Pra você ver como o fantasma do confisco ainda é forte. E é óbvio que eles estão se valendo disso.
– Esse tipo de comparação, que se sustenta na ignorância do povo, me deixa puta da vida. Porque as duas medidas são completamente diferentes, em épocas extremamente distintas, realidades econômicas opostas, fases do capitalismo incomparáveis. Enfim... nada, nada a ver.
– Mas parece que vão ter que mudar mesmo. Os juros caíram muito e aí os outros investimentos passaram a ter quase o mesmo rendimento. Só que a poupança não paga imposto de renda e não tem risco nenhum. Tô por dentro, amiga. Cobrir economia tem dessas coisas.
– E o que o governo quer, falando em português claro, é que a galera gaste dinheiro sem dó.
– Bom, nada se compara ao que o Collor fez, mas eu espero que não acabem com as minhas parcas economias, né? E o que que a piralhada tem a ver com isso?
– Eu engatei num papo animadíssimo com a professora sobre o governo Collor, sobre as mutretas, PC Farias, Casa da Dinda e a época que o escândalo veio à tona. E a classe em silêncio absoluto. Todo mundo com cara de conteúdo, ouvindo atentamente a conversa, mas sem falar nada. Aí eu não aguentei. Tive que perguntar se eles “conheciam a história” do impeachment do Collor, porque lembrar eu já tinha percebido que não seria o caso.
– E aí?
– Alguns acenaram com a cabeça, outros olharam pro lado. E eu apertei: “Vocês sabem que ele ‘caiu’ por causa de uma Elba, né?”
– Nossa, é mesmo!
– Aí um aluno respondeu todo empolgado: “Ah! Aquela feiosa que cuidava da economia?”. Morri de rir, Ni. Eu estudo com gente que usava fralda no impeachment do Collor!
– Ah, Dani... Mas também não dá pra ser que nem aquele seu ex-namorado... aquele mais velho, que “se recusava” a conversar com quem não tinha visto a Copa de 82, sabe? Puta cara mala!
– Sei. Mas a Copa de 82 e o impeachment do Collor nem se comparam, né, Ni? Tô falando da história do Brasil, de política. Ter profundo desconhecimento sobre esse episódio revela, no mínimo, displicência! Querer ser jornalista sem saber distinguir uma mudança no rendimento de um congelamento não dá. Pelo amor de Deus.
– Tem razão, mas nem por isso a Copa de 82 tem menor importância, heim? Poxa, a seleção canarinho do mestre Telê! Futebol ofensivo, criatividade em campo, Sócrates e Zico brilhantes no ataque. Metemos 3x1 na Argentina de um tal de Maradona... A Copa do Mundo marca uma geração!
– E você? Viu?
– Vi no You Tube!

(Foto: Reprodução)

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Tragédias e a mídia

Mortos pelas chuvas no Norte e Nordeste desde abril: 38

Mortos pela gripe suína no mundo inteiro desde março: 44

Até quinta-feira (7/5), 141 cidades do Nordeste havia decretado situação de emergência. Uma em cada 13. O excesso de chuva atingiu 287 municípios em dez Estados: Ceará, Maranhão, Piauí, Paraíba, Rio Grande do Norte, Bahia, Alagoas, Amazonas, Pará e Santa Catarina. Os desabrigados chegam a quase 800 mil de acordo com a Secretaria Nacional de Defesa Civil.

Ontem, numa conversa em família surgiu a dúvida: onde enviar doações para o Nordeste? Lembramos da imensa campanha nacional realizada em dezembro passado para ajudar nossos compatriotas de Santa Catarina, quando as chuvas mataram mais de 120 pessoas e afetaram a vida de mais de 1 milhão. Ninguém soube responder direito. A Defesa Civil? Talvez a Igreja? Na campanha por Santa Catarina, até redes do varejo se engajaram, facilitando muito a colaboração.

Hoje, numa rápida busca na internet, achei uma matéria que dizia “Veja os pontos de doação para os atingidos pelas chuvas no Norte e Nordeste”. A surpresa: a Defesa Civil de São Paulo “ainda não está aberta para doações de particulares”. Os demais pontos citados na nota ficam em Estados das regiões Norte e Nordeste.

Acho que comparar tragédias é inútil e algo que não se deve fazer. A dor e as dificuldades são imensuráveis e não há números que possam expressá-las ou diferenciá-las. Gente sofre igual. O que dá pra questionar é a cobertura da mídia e a ação das autoridades. Por que o povo nordestino recebe menos atenção?

(Ps- Alguém sabe onde entregar donativos para as regiões afetadas pela chuva? A colaboração será mais que bem-vinda)

domingo, 26 de abril de 2009

O pianista, o escritor e a menina

Carolina entrou em casa correndo junto com sua pergunta: “Manhê! Onde tá meu taco novo?”. Mas não veio resposta nenhuma. Na sala, a mãe olhava para a televisão como se estivesse hipnotizada. “Mãe, você sabe...” A frase parou assim que o dedo indicador da mãe tocou os lábios. Carô percebeu que era melhor ficar quietinha. Lentamente, a mãe sentou-se na ponta do sofá, segurando os joelhos com as mãos, sem tirar os olhos da TV.

A menina sentou-se ao seu lado e viu umas pessoas de preto chorando na televisão. Reconheceu Luiza: “Olha! A menina da música”, mas sua animação foi contida pelos olhos mareados da mãe. “O que aconteceu?”, perguntou preocupada. “O Tom Jobim morreu.” E a mãe enxugou uma lágrima.

Aquela cena deixou a menina intrigada. O tal Tom Jobim não era parente nem nada. Tudo bem que ele sempre tocava lá no som de casa, e ela se orgulhava de saber de cor letras compridas, como “Águas de março” – que ela tinha aprendido recentemente que fechavam o verão. Mas porque a mãe chorava (sendo que a mãe nunca chorava) era difícil de entender.

Quando a menina cresceu, tornou-se uma devoradora de livros. Entre tantas obras, clássicos, romances, biografias e livros-reportagem, um escritor português a fisgou de um jeito especial. Um homem velhinho, com óculos de lentes grossas e uma capacidade incrível para criar situações mirabolantes, mas que em sua prosa tinham a mais perfeita veracidade.

Ele dizia: “No dia seguinte, ninguém morreu”. E ninguém morria mesmo. Era um Deus nos acuda para cuidar de tantos enfermos que a morte, por puro capricho, decidira não levar. “Estou cego”, gritava o médico dentro de seu carro. Assim, de repente. Cego de uma cegueira branca, leitosa, que em pouco tempo se espalhou pela cidade. Todos temiam que ela chegasse. Menos uma mulher.

O escritor contava que uma enorme fenda se abriu, como um risco no chão, entre a Península Ibérica e a “mãe amorosa” Europa. Por mais que geólogos, engenheiros e estudiosos tentassem evitar, a terra desprendeu-se do continente e seguiu por mares antes nunca navegados, num ímpeto humano de liberdade.

Tudo narrado com extrema verossimilhança. Ele contava, e quando as páginas se abriam, ela acreditava.

Foi então que, num dia de trabalho, Carô leu na internet a notícia de que Saramago estava muito doente, internado num hospital. “Ah, não. Ele não...”, disse baixinho, censurando a emoção na garganta – afinal, não pegava bem ficar com os olhos e o nariz vermelhos no trabalho. Como explicar para as pessoas aquele afeto por alguém que ela nem conhecia?

Naquele momento, a dúvida da quinta-feira de férias dissolveu-se em um sorriso nostálgico. Há pessoas que se tornam especiais, por fazerem parte do que há de mais especial: a nossa história.

(Ah, e na semana seguinte ela respirou aliviada quando soube que estava tudo bem com o escritor!)

quinta-feira, 16 de abril de 2009

1 ano!


Domingo passado, dia 12 de abril, o Pensamentos Transitivos fez um ano. E eu ando tão relapsa com o meu espaço que deixei a data passar em branco. Mas, mesmo assim, resolvi escrever sobre esses últimos doze meses e comemorar a data hoje.

Escrever um o blog foi uma experiência incrível pra mim; meio maluca até. Comecei sem muitas pretensões; queria apenas publicar minhas histórias e que mais pessoas as lessem.

Aos poucos, fui descobrindo o alcance que meus casos e causos podiam ter. Homenageei as pessoas que mais amo, aproximei pessoas que não se falavam mais, acalentei gente que estava longe e gente que estava perto (mas nem sempre presente). Diverti, esclareci, compliquei, emocionei. Escrevi contos que mexeram profundamente comigo e com os leitores.

Dialoguei com outros blogueiros e blogueiras (conhecidos ou não) e descobri que essa brincadeira me aproximou ou me manteve em contato com pessoas muito queridas.

Nestes 80 posts, teve gente que comentou, gente que mandou e-mail, recado no MSN ou disse ao vivo mesmo o que pensava.

Isso tudo foi muito louco e muito, muito bom. Por isso e por mais um monte de coisas que nem tenho como explicar, agradeço a todos que acompanham os meus Pensamentos. E peço um pouquinho de paciência com a periodicidade das postagens. Passei por um “inferno astral” e espero voltar com força total!


(Foto: Getty Images)

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Aquecimento global

Ótimo!

segunda-feira, 30 de março de 2009

Marias e madames

Maria Aparecida foi flagrada tentando furtar seis desodorantes de uma loja. Devolveu os produtos e alegou que iria trocar a mercadoria na favela onde mora, por comida e produtos de higiene. Condenada a 14 meses de prisão, cumpre pena há 13 na Penitenciária Feminina de Sant’ana.

Sonia Drigo, advogada que há quatro anos trabalha voluntariamente defendendo mulheres como Maria, acusadas de pequenos furtos, tenta há 3 meses um habeas-corpus para sua “cliente”. Os dois últimos pedidos foram negados.

“Pra que manter uma pessoa presa quando se sabe que ela poderia estar respondendo em liberdade? Mesmo condenada, a pessoa tem direito a uma pena alternativa. A prisão seria a última possibilidade de penalização. Mas penas alternativas não têm sido aplicadas em caso de furto. Vale a pena afastar uma mãe de seus filhos, destruir um núcleo familiar, por R$ 24?”, questiona. “É preciso dar a estas pessoas que roubam para comer um tratamento social, não prisional.”

“Muitas vezes as pessoas comentem furtos quando estão drogadas, bêbadas ou têm – por que não? – distúrbios de cleptomania. Não é só o rico que entra em butique que tem este tipo de problema”, diz Sonia.

E por falar em butique, antes mesmo que a reportagem fosse publicada, Eliane Tranchesi, condenada a 94 anos de prisão que, comprovadamente, sonegou R$ 1 bilhão de reais, foi presa no mesmo Presídio de Sant’ana e solta. A diferença é que o habeas-corpus dela saiu em menos de 24 horas.

De um lado R$ 24; do outro R$ 1 bilhão. Dá pra acreditar?


Foto: AE/Nilton Fukuda

Sobre o silêncio

Amiga, querida...

Nosso silêncio tem coincidido. Você não responde, não liga, não escreve e nem me cobra posts novos. E eu não conto causos, nem escrevo pensamentos. Tá todo mundo percebendo já, menos você.

Há momentos em que a gente precisa ficar sozinha. Trancar a porta do quarto, como se fechássemos o mundo. Sofrer o que precisa ser sofrido, para que a tristeza passe. Até que, um belo dia as lágrimas de março passam. A gente acorda mais leve, escancara as cortinas, aumenta o som e se troca dançando na ponta do pé.

Eu respeito seu silêncio, amiga. Mas pessoas como nós, que falam sozinhas pela simples necessidade de colocar para fora os pensamentos, não podem ficar tanto tempo caladas. Faz mal. Como diz minha avó, “não presta”. Acumula uma angústia enorme, bem no meio do peito.

E eu não quero nenhuma de nós angustiada.

Chega desta pausa de mil compassos?

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

De manhã


É ruim acordar com torcicolo,
Com neném pedindo colo
Com dor de cabeça
Atrasado à beça
Sem água na torneira
Ou com uma baita coceira

É chato acordar com galo cantando fora de hora
Música chata na cachola
Reforma no vizinho
Ou pernilongo zunindo

É gostoso acordar com cheirinho de café
Passarinho cantando na janela
Panqueca escorregando na panela
Ou um belo cafuné
(Foto: Getty Images)

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Ai, que crise!

Estresse financeiro:

“Com que frequência você se vê contando os dias para o próximo pagamento?”

Tem algum trabalhador não estressado aí??
(Foto: Getty Images)

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Bodas de prata

Ele não existiria sem ela
E não hesitaria mais nem um minuto em admitir,
Que sem o entusiasmo e o brilho nos olhos dela,
Não teria coragem de tornar públicas suas ideias

Não escreveria um livro novo,
Porque não haveria a quem dedicar,
E no lançamento, a mão dela não seguraria a sua,
Nem os olhos negros orgulhosos pousariam sobre os seus

Sem ela, a sensação de dever cumprido seria menos prazerosa
Porque não significaria tempo livre para amá-la
Nem tranquilidade para ver a vida passar em silêncio

Sem ela, não haveria quem o desvendasse,
Quem penetrasse em sua casca dura,
Quem o acalmasse nas noites de angústia, insônia e longas conversas

Ela acreditava,
E por isso ele acreditou.
Sem ela, ele não seria quem é

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

DRs* tensas

Sábado, sol forte, trânsito livre, cd novo tocando no último volume. Feliz da vida, pego a Marginal, saio da Marginal, passo pelo túnel, por um, dois, três faróis verdes. No quarto: vermelho. Olho para o céu e agradeço o tempo bom num dia de folga. Coisa rara. Sabe aqueles momentos de felicidade pura, em que o mundo parece estar no mesmo clima que você? Mas eu descobri que não estava.

Antes de o farol abrir, o carro da frente subiu com a roda dianteira no canteiro central. Imaginei que tivesse acontecido alguma pane elétrica e fiquei parada, na dúvida se descia pra ajudar, se desviava ou esperava o cara subir com a outra roda e liberar a passagem. Eis que desce do carro um sujeito vermelho de raiva. Pega uma pasta preta, bate a porta do motorista com força e sai andando, praguejando alto, desviando dos carros da movimentada avenida.

Dentro do carro abandonado, tinha uma moça gesticulando e gritando, mas não dava pra ver nem ouvir nada – os vidros eram escuros e estavam fechados.

E eu fiquei me perguntando... Que diabos a mulher tinha falado pra deixar o cara tão puto daquele jeito? Quão irritante deveria estar a conversa ali dentro pro cara simplesmente desistir? Porque ninguém abandona um carro na pista da esquerda e sai andando no meio da avenida à toa...

Muitos ameaçam (“você quer dirigir?”), principalmente quando a mulher reclama do caminho, do jeito que o cara dirige, se ele ultrapassa pela direita, se fica colado no carro da frente, se anda em alta velocidade, mas abandonar de verdade, eu nunca tinha visto.

* * *
“Foi apenas um sonho”, filme de Sam Mendes com o casal Leonardo DiCaprio e Kate Winslet, tem um roteiro bem parecido com a cena presenciada na avenida paulistana. Começa com uma das DRs mais tensas que já vi no cinema e por aí vai... não muda muito não.

Na primeira DR do casal, a briga começa porque tudo o que ela quer é que ele cale a boca e a deixe quieta com as suas frustrações. E tudo o que ele quer é se mostrar sensível, compreensível e amoroso. Mas tem horas que sensibilidade, compreensão e amor não ajudam uma mulher irritada em porra nenhuma. E nessas horas, meus caros, o melhor mesmo é ficar na sua e deixar a raiva dela passar.

Bastava a Kate dizer isso com jeitinho para o Leo, que tudo ficaria bem...

Por que será que quando a gente vê de fora, as coisas parecem tão mais fáceis?


(* DR, pra quem ainda não é familiarizado com o termo, significa “Discussão de Relação” – um saco)

(Fotos: Reprodução)

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Realismo urbano

(Clique nas imagens para ampliar)
No ano passado, o muro do acesso ao viaduto Tutóia, na Avenida 23 de maio, ostentava uma cor sem graça – meio bege, meio marrom, meio ocre. Hoje, o espaço é ocupado por um grafite, em tons de cinza, que retrata cenas da São Paulo da década de 20.


(personagem do mural visto de pertinho, da calçada da 23 de maio)

A obra, idealizada por Eduardo Kobra e pintada por ele e mais seis artistas, tem aproximadamente mil metros quadrados e custou R$ 10 mil (dinheiro que Kobra afirma ter pago do próprio bolso). Mesmo localizado ao pé de grandes empresas - como a IBM -, o grafite não teve nenhum patrocínio.

(... e de longe, do alto da Rua Estela)

O realismo da obra e a perspectiva das cenas impressionam. O grafite convida as mais de 220 mil pessoas, que enfrentam o trânsito pesado da 23, a viajar para uma São Paulo mais tranquila, onde bondinhos circulavam e os últimos lampiões de gás resistiam à chegada da iluminação elétrica.

Para ver mais fotos, clique aqui.

(Fotos: Marina Morena Costa/iG)

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

O Diabo e os milhões

(Clique nas imagens para ampliar)

(Interior da igreja Renascer)

– O que mais me deixa nervosa é saber que isso foi provocado...
– Como assim?
– Encontraram pólvora.
– (Atônita, pois a informação não condizia com o relato dos bombeiros, nem da polícia) É mesmo??? E quem provocaria uma coisa dessas?
– Ah, você sabe que tem muita gente que não gosta da Igreja.
– Mas quem? Algum grupo, moradores, associações?
– Não é uma pessoa, assim propriamente dito.
– Mas quem?
– Ah, moça... O diabo se manifesta nas mais estranhas maneiras...

* * *
– Como é que pode cair um teto inteirinho daquele jeito?
– Pois é. Ninguém sabe ainda.
– Mas eu te pergunto uma coisa: se o Kaká doou 8 milhões de reais para a Igreja, por que é que ninguém reformou o teto, meu Deus?



(Fotos: 1-Marina Morena Costa; 2-AE)

Meio Alice

Em apenas 20 dias, 2009 mostrou pra mim a que veio: será um ano intenso, cheio de “acontecimentos”. “Fingi” aqui no blog que estava de férias, mas na verdade voltei da minha curta e deliciosa semaninha na praia há vários dias. E de lá até aqui não parei um segundo.

Guerra em Gaza, dados econômicos de 2008, impostos de 2009, posse de Obama, plantões e uma igreja que despenca no domingo. Assistindo a escalada do Jornal Nacional, lembrei de um comentário que fiz quando criança, ao ver o mesmo trecho do jornal: “Todo dia acontece tanta coisa, né, mãe?”.

Sinto-me meio como a Alice da HBO, enlouquecida com o ritmo da cidade alucinante, mergulhada no universo profissional. E meio como a do País das Maravilhas, atordoada com o coelho branco apressado: “Ai, meu Deus! Ai, meu Deus! Estou muito atrasado!” / “Ai, minhas orelhas e meus bigodes, como está ficando tarde!”

É... 2009 chegou com pressa.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Minas Gerais

(Clique nas imagens para ampliar)
No meio dos mais de 300 e-mails que recebo por dia, me apareceu esta surpresa boa: fotos históricas de Diamantina, registradas nas décadas de 30 e 40 pelo fotógrafo Assis Horta. Assis é o único fotógrafo vivo dos tempos em que o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional possuía artistas espalhados por todo o país com a tarefa de registrar cidades, para que suas fotografias servissem de base para dossiês de tombamento.


Hoje, aos 90 anos, Assis é homenageado com uma exposição no Museu do Diamante, na cidade mineira que ele registrou em preto e branco, imprimindo em duas cores a essência do lugar. Foi por causa desta exposição que recebi o e-mail surpresa com fotos de Assis e um texto encantador sobre o trabalho do fotógrafo.

E surpresa boa é assim, chega sem avisar, pega a gente desprevenido, nos dá aquele sobressalto e por alguns instantes nos tira do mundo. Eu, vendo as fotos do Assis, viajei pra Minas. A Minas que pra mim se traduz na deliciosa comida da minha avó: colorida, saborosa e cheia de segredos inexplicáveis. “O segredo do pão de queijo tá no polvilho, Nina.” Mas há como desvendar? Não, não há.

Vendo essas fotos viajei pra uma Minas de café docinho, bolo de fubá, cigarro de palha no canto da boca, banho de rio e “vamo proseá um pouquim”, “entra, pode ficar a vontade”. Uma Minas de ruas de paralelepípedo, cheiro de terra, pó de estrada, trabalho, sol forte, alambique, enxada e uma fé ferrenha, que dobra as esquinas.

Pra mim, Minas é como a música do Milton, suave e positiva, e ao mesmo tempo dolorida e calejada. Em músicas como “Ponta de Areia”, Milton canta com uma dor profunda em sua voz. Dor carregada, dor herdada. Dor de quem não teve escolha, senão a resignação. Dor de um povo que sofreu calado e hoje canta.



O fotógrafo Assis Horta



"Diamantina 360º - sob o olhar de Assis Horta"
Curadoria de Eustáquio Neves
Museu do Diamante - Diamantina, MG
Até 28 de março de 2009
Entrada franca


(Fotos: Assis Horta e Wellington Pedro/Divulgação)

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Deserto do Atacama

(Clique nas imagens para ampliar)
"Há paisagens, como instantes da vida, que não se apagam jamais da mente; voltam sempre a nos impressionar, vindas de dentro de nós, com intensidade cada vez maior" – Francisco Coloane, escritor chileno. Trecho do conto Terra de Esquecimento, em Terra do Fogo (Ed. Francis, p 134).


A cada curva da estrada que corta o deserto surgem paisagens surreais, como esta da foto acima, o Salar das Aguas Calientes. Um vale branco, entrecortado de lagoas celestes e cercado por montanhas cor-de-rosa. De uma beleza assustadora. Tão extraordinário, tão maravilhoso, que parece irreal.


Vales nevados chilenos, na estrada que liga o Atacama à Argentina

Paisagens vindas de um mundo de sonhos e devaneios. Onde as águas podem ser brancas como leite e as montanhas cor-de-rosa, azuis, laranjas, vermelhas ou verdinhas. Um mundo onde as rochas que irrompem no horizonte contêm camadas, como as de um bolo, só que de recheio quente e vermelho.

O vulcão inativo Licancabur

As distâncias no Atacama enganam os olhos. Como o ar é extremamente seco – o deserto é considerado o mais árido do mundo –, a visibilidade atinge mais de 100 km. Algo como se de São Paulo conseguíssemos ver o mar.
O vulcão Licancabur, vizinho ao vilarejo de São Pedro do Atacama, parece alcançável em uma rápida caminhada, mas, na verdade, está à 45 km de distância.

O deserto do lado argentino - campos de baja brava, vegetação rasteira que cresce em altitudes elevadas; Argentina, próximo à fronteira com o Chile

Às vezes sonho acordada que estou no Atacama, correndo entre montanhas azuis, pinceladas de neve e campos amarelos. Às vezes lembro do meu corpo pesado a 5.500 metros, do silêncio, do ar rarefeito. E nada descreve melhor esta lembrança do que as palavras de Francisco Coloane.

Pequenos, diante da imensidão da Cordilheira do Sal; Atacama, Chile

Agora com trilha sonora!

Novidade no blog: descobri como colocar músicas para ilustrar os posts! Agora os textos vão vir com trilha sonora. E é supersimples: basta clicar no "play" vermelhinho, que aparece ao lado do logo da Blip.fm, para ouvir.

Com atraso, mas em tempo, sugiro a (re)leitura dos seguintes posts: Ah, o samba!, Horário de verão, Ouvindo Elis & Tom e Pensamentos....

Logo mais publico textos e contos (com e sem trilha). Tá corrido, mas a gente vai levando...

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Micaela

Micaela é uma moça de cabelos cor de fogo, brincos grandes e sorriso largo. Black power armado, bolsa de tecido azul, colete amarelo curtinho. Gosta de arte e vive de arte; trabalha vestindo pessoas e idéias numa produtora de vídeos.

Micaela olha nos olhos da gente quando conversa. Fala com calma, explica, gesticula, não foge das perguntas, encara tudo de frente. Assim como encara a vida; contrariando estatísticas, superando preconceitos.

“Há uns 15 anos, achavam que a gente não ia sobreviver. Aí fundaram as casas de apoio, porque pensavam ‘tadinhos, são órfãos, perderam os pais, vão ficar largados por aí. Melhor cuidar, né?’”.

Hoje, Micaela tem 20 anos, já visitou a casa de Bob Marley (“um mestre pra mim”) e conversou com jovens jamaicanos portadores de HIV. “O que a gente levou pra eles foi mostrar que aqui no Brasil as pessoas com AIDS lutam dando a cara. E lá não, lá tem muito preconceito. Muitas pessoas têm HIV e nem sabem, porque têm vergonha de fazer o teste.”

Micaela tem planos e sonhos. Quer cursar faculdade de Artes Plásticas e ter sua própria casa – pra morar com o irmão mais novo, de 14 anos, que vive na mesma casa de apoio onde ela cresceu.

“Morrer todo mundo vai. E estamos todos tão vulneráveis. Violência, bala perdida... E já pensou que horror não morrer, viver pra sempre?”

Uma hora se passa e eu nem percebo. Quando vejo que ela está cansada de tantas perguntas e respostas, encerro a entrevista. Micaela vai embora e deixa uma palavra pra mim no ar: leveza.

(Foto: Marina Morena)

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Carta ao escritor

Se algum dia você criar uma personagem inspirada nessa moça de lábios vermelhos e canelas finas, faça-a mais forte do que eu. Não quero ver minhas súplicas, minhas inseguranças, minhas cenas protagonizadas com fervor e maestria, das quais nunca me orgulhei. Faça uma mulher decidida, sensual, de vocabulário requintado, assim como o seu.

Mas não se esqueça de contar sobre os vestidos. Ah, os vestidos! Fale sobre uma moça de pernas tortas, que acreditava que essa peça não lhe caía bem. Toda vez que experimentava um vestido, sentia-se desproporcional, esquisita, chamativa. Conte com riqueza de detalhes o olhar masculino apaixonado que caiu sobre o corpo dela. Faça o narrador onisciente presenciar o momento exato em que essa moça se descobriu, verdadeiramente, em frente ao espelho. Percorra a imagem refletida, assim como ela, inclinando a cabeça para os lados e esticando o pescoço para alcançar todos os ângulos possíveis.

Fale sobre o sorriso leve, de lábios colados, que se apossou do rosto da moça quando ela percebeu a graça que o homem via em suas formas de mulher; quando admirou a sensualidade do pano leve, justo em sua cintura fina, caindo com leveza pelos quadris. Descreva esse momento mágico da transformação da moça em mulher. Um movimento sutil, quase imperceptível, mas que você detectou em mim. E riu, como sempre ria das minhas pequenas conquistas.

Nunca tive a eloqüência, nem a desenvoltura que você tem com as palavras, mas você sabe do que estou falando. Você viu quando minha expressão obteve um ar de tranqüilidade, como se por mim tivesse passado por um sopro diferente. Você viu.

Escreva sobre uma mulher que entregou a um homem sua juventude, sua alma, sua carne dura. Imprimiu na mente dele a silhueta feminina perfeita dos vinte e poucos anos, como uma atriz, que se deixa registrar por lentes ávidas por ângulos e curvas. E o que instiga essa moça (pasme!) é o que ainda virá. Ela não teme o futuro. A barriga arredondada, os seios fartos, o ventre proeminente. Quer que ele acompanhe as mudanças, e ame milimetricamente seu corpo de mãe, de mulher. Porque ninguém melhor do que ele saberá admirar cada fase de sua vida.

Vá. Bata no teclado fazendo aquele barulhinho gostoso, coce rapidamente a testa com as costas da mão, deixe o cigarro esquecido no canto da boca, derrube a cinza na mesa antes de chegar ao cinzeiro. Não ouça o que ela lhe diz, assim como você não me ouvia quando fixava os olhos na tela, indiferente ao dançar dos dedos, em busca das letras. Vá e dê um final feliz para essa moça de lábios vermelhos. Pelo menos desta vez.

(Foto: Getty Images)

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

A seleção dos feios

A cena poderia ser estranha pra quem não é lá muito familiarizado com futebol: quatro homens no bar escalando “a seleção dos feios”. Mas se você conhece os jogadores, há de concordar comigo e com “os técnicos” que a grande sorte desses rapazes foi nascer com habilidade nos pés.

– Já pensou se eles não jogassem bola? Como é que iam conseguir mulher?

Eu e Gábi, entendidas nos dois quesitos (futebol e beleza – ou feiúra? – masculina), ajudamos os meninos a lembrar alguns nomes. Depois de muito esforço chegamos em 11 jogadores. Veja só a nossa escalação:

Em cima, da esquerda para a direita: Higuita (goleiro), Ruy (lateral direito), Odvan (zagueiro), Tonhão (zagueiro), Lúcio (lateral esquerdo) e Capitão (volante).

Embaixo, da esquerda para a direita: Amaral (volante), Ronaldinho Gaúcho (meia), Marcelinho Paraíba (meia), Acosta (atacante) e Tevez (atacante e capitão do time).

No banco ficaram ainda: Júnior (lateral esquerdo), Mazinho (volante), Perdigão (volante), Biro-biro (volante), Rivaldo (meia), Carlinhos Bala (atacante), França (atacante), Dodô (atacante), Obina, (atacante), Paulo Nunes (atacante), Finazzi (atacante) e Ronaldo Fenômeno (também atacante).

E eu fiquei com uma pulga atrás da orelha: por que será que tem tanto atacante feio?


(Foto: Reprodução - Clique na imagem para ampliar)

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Futuro

Demos as mãos e subimos juntos a escada. Lá no final, um horizonte esplendoroso se escancarava, colorindo nossos olhos. Como crianças curiosas, olhamos ao redor e sorrimos, maravilhados com aquele mundo de possibilidades, que na verdade sempre estivera ali, adormecido no fim da escada.
Ele pulou e me deu a mão, para juntos corrermos em direção ao mundo.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Pintora da luz

Assim como o Adelino, Lívia era uma menina apaixonada por cores. E as cores do mundo de Lívia se expressavam nas telas que ela pintava. Ver o tecido branco ganhando um colorido alegre, traços, linhas e textura enchia a menina de satisfação.

Lívia gostava de misturar as tintas com as mãos. Cada dedo retirava a quantidade exata de tinta dos potinhos e bisnagas. Lambuzar a mão numa substância fria, melequenta, que escapava por entre os dedos quando ela apertava a mão bem forte eram a mais perfeita tradução de felicidade.

Mas uma coisa incomodava a menina: a profundidade. “Pai, por que as minhas flores ficam sempre com essa cara de felicidade estúpida?” “Como assim, Lívia?” “Assim ó, abertas, como num sorriso bobo... Não tá igual as do vaso.” “Ah, isso acontece porque você desenhou as pétalas chapadas, sem profundidade.” “E como que se aprofunda as flores?”

O pai pegou lápis, papel, desenhou um pontinho no meio da folha e traçou linhas que saiam daquele ponto em direção a uma pétala solitária. Tentou recordar as aulas sobre o tal ponto de fuga, olhou pro desenho, sentiu uma pontinha de vergonha por desenhar um negócio esquisito, sem a graça que as flores alegres da filha tinham. Lívia esticou o pescoço para ver o desenho e, quando ia perguntar se aquela bolinha no meio do papel era um sol pequenino, o pai amassou a folha. “Tá lindo desse jeito, Lívia. Bem alegre. Amanhã você pode perguntar pra sua professora de artes como faz diferente, que tal?”

Tempos depois, a menina, que já era uma moça, herdou uma máquina profissional do pai. Analógica, totalmente manual – até mesmo porque ainda não existiam câmeras digitais naquela época. O pai explicou como funcionava o fotômetro, cada função da máquina (abertura, velocidade, filtro, iso do filme) e deixou Lívia completamente fascinada. O dedo frenético da garota gastou filmes e mais filmes, mas só as revelações revelaram o verdadeiro funcionamento daquela invenção maravilhosa.

“Sabe como eu defino o fotógrafo, filha?”, perguntou o pai olhando as fotografias de uma viagem que Lívia fez pro sertão do Brasil, e, coincidentemente, pro interior de si mesma. “O fotógrafo é o pintor da luz. Em vez de tinta, ele usa a luz para pintar. E a mente também, é claro. Ele observa a cena, a claridade, as sombras, e ajusta a máquina para pintar o quadro que ele quer. Mas é só na revelação, neste momento mágico para o fotógrafo, que ele descobre se o resultado ficou como o esperado. Palavra melhor para essa etapa não poderia haver, não é verdade? Revelação. E você revelou-se uma excelente pintora da luz, menina.”

E hoje é assim, seja com filme colorido, cromo ou preto e branco, a menina pinta com a luz. Busca o conteúdo velado em seus retratos, mostra as pessoas como são. Confessa ter um olhar “pouco preocupado em não se envolver com o objeto focado”, pois, se envolver inteiramente é com ela mesma. De coração. Coisas de fotógrafa.

(Foto: Lívia Machado)

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Ah, o samba!

Sexta-feira. Desaba sobre São Paulo o resultado de uma semana abafada. Às 21h, o samba da Bahia me espera na chopperia do SESC. São 20h, e eu na redação tentando fechar uma matéria sobre absolvição do uso de drogas dentro das penitenciárias. Sistema penal, drogas, punição, legislação... Assunto delicado. Um entrevistado diz “não é justo o preso perder o direito à liberdade condicional por consumir entorpecentes”, o outro levanta o dedo “eles não estão lá na cadeia passando férias”... complicado...

Coloco o pé na rua às 20h15. Chove forte e eu sem guarda-chuva. Entro no ônibus, saio do ônibus, passo em casa que nem um furacão, troco de roupa, pego a chave do carro. “Tchau, mãe!”

Trânsito na Brasil, trânsito na Henrique Schaumann, trânsito na Sumaré. Chuva, limpador de pára-brisa quebrado, fazendo um nhec-nhec irritante, vidro embaçado, vidro aberto, chuva no braço, e os minutos correndo. Uma vontade enorme de fazer o primeiro retorno, tomar banho, jantar, assistir TV, descansar. “Vem, Má! Dá tempo!”

Consigo uma vaga! Consigo entrar atrasada! A Florzinha vem me buscar na porta! É o samba, é o samba! E lá do palco, Mariene de Castro canta a música que eu queria ouvir:

“Com água, flores e perfumes
A escada da colina eu lavei”
(Ilha de Maré)

E aí? Aí foi que eu sambei com as flores, rodei, brindei, lavei a alma, dei risada, sambei mais um pouquinho, bati na palma da mão e gargalhei mais um tanto.
Ah, Bahia de todos os sambas...
Ah, as flores do meu jardim!